A pedagogia do verdadeiro culto a Deus

As necessidades determinam o culto de forma que no final, se alcance o desejo dos presentes. Isso não é uma pedagogia de um verdadeiro culto a Deus.

Imagem - Força Jovem
Want create site? Find Free WordPress Themes and plugins.

E dizendo: Varões, porque fazeis essas coisas? Nós também somos homens como vós, sujeitos às mesmas paixões, e vos anunciamos que vos convertais dessas vaidades ao Deus vivo, que fez o céu e a terra, e o mar, e tudo quanto há neles; O qual nos tempos passados deixou andar todas as gentes em seus próprios caminhos.
E contudo, não se deixou a si mesmo sem testemunho, beneficiando-vos lá do céu, dando-vos chuvas e tempos frutíferos, enchendo de mantimento e de alegria os vossos corações. E, dizendo isto, com dificuldade impediram que as multidões lhes sacrificassem. At 14.15-18

A chegada de Paulo e Barnabé a cidade grega de Listra foi marcada pela operação de um milagre. Um homem coxo, depois da oração dos companheiros da missão, volta a andar, o que causou um frenesi naquela cidade. Os moradores conforme sua cultura pagã logo atribuiu o tal feito a dois dos deuses de seu vasto panteão: Júpiter e Mercúrio. O sacerdote com toda a cidade veio prestar culto a Paulo e Barnabé. A lógica idólatra daquele povo lhes permitia apenas imaginar os discípulos como deuses, nunca conseguiriam perceber um Deus criador se revelando a eles por meio de seres humanos, regenerados, mas humanos. A escuridão do entendimento não lhes dava condição de ver nada além, por isso a necessidade da pregação do Evangelho.

Assine o Blesss

Mas, esse comportamento entre povos pagãos era regra, não exceção. Porém, quando tal cosmovisão é manifesta pelo povo eleito, pelo povo a quem Deus se revelou continuamente na história que proclama pertencer a um único Senhor, a quem deve obediência e adoração, há um claro sinal de corrupção. Todavia, essa corrupção nem sempre significa negação do nome do Senhor. Ela pode vir revestida aparentemente de santidade, devoção, piedade, mas, objetivamente, continua sendo falsificação. E, no que tange ao culto, qualquer inovação pirotécnica para lhe fazer dialogar com a cultura vigente, fatalmente reduzirá sua simbologia a mero ritual. Afinal, toda forma de liturgia engrandece ao Senhor? Todo culto visa à adoração ao único Deus?

Quem é o Senhor cultuado?

A resposta pode parecer óbvia, mas sem reflexão, pode-se chegar a conclusões equivocadas. O Deus Bíblico não é o único ser cultuado. A antiga máxima romana, “todos os caminhos levam a Roma”, não pode ser parafraseado em “todos os caminhos levam a Deus”. Essa é uma impossibilidade demonstrada largamente no Antigo Testamento, e ampliada no Novo. A forma como se dirigir ao destino e o caminho que leva a ele, é pré-determinado, ou seja, não é possível ir para os Estados Unidos comprando uma passagem aérea para Sidnei, na Austrália. Não é o caminho que determina o destino, é o destino que determina o caminho a ser tomado. O culto é a via de exaltação e adoração a Deus. É a demonstração pública do senhorio de Cristo e do caráter de Sua Santidade, através dos atos devocionais de seu povo. Por isso, Ele mesmo estabelece esses atos, afim de que seu caráter santo não seja maculado. Todas as vezes que tentamos ser criativos, escorregamos para o paganismo.

O povo de Israel havia acabado de sair do Egito, após demonstrações poderosas de Iavé, eles estão diante do Monte Sinai aguardando Moisés voltar de uma reunião com o libertador deles. O assunto da reunião é justamente os novos parâmetros de vida e devoção que o povo deveria cultivar para com Deus. Lá, Moisés está ouvindo instruções detalhadas, desde regras primordiais quanto ao comportamento ético do povo, a especificações minuciosas sobre a forma e o local de adoração e comunhão. Segundo Schultz, isso era para que não houvesse similaridades entre o culto a Deus e o culto pagão idólatra egípcio . Porém, enquanto Moisés se ausenta por tempo longo demais para a paciência judaica, alguns do povo se unem para tomar novas decisões e vão buscar Arão, o Sacerdote, e lhe encomendam um novo deus, que receberá os créditos pela liberdade concedida e será o centro da adoração dessa nova nação. Arão atende afinal, o povo é quem manda e o pastor deve perceber e atender aos anseios de sua congregação. De sua arte no fogo surge o novo deus, e a ele o povo festeja, canta e faz oferendas. O resultado disso, você confere em Êxodo 32 e 33.

Os elementos componentes do culto têm por objetivo ensinar. O Tabernáculo, o Candelabro, a Pia, os Pães, todos estavam carregados de significados maiores e muito além de si mesmos. Não eram objetos de adoração, antes, apontavam para o caráter do único adorado naquele lugar. Por isso as orientações de Deus a Moisés são tão específicas e exigentes. Dar ao bezerro a honra pelo livramento era idolatria tanto quanto crer que a Arca possuía a presença de Deus, e que, conduzindo-a estariam arrastando Deus com ela (I Samuel 4.3). Todos os povos da antiguidade, ao redor de Israel, tinham no politeísmo sua religião cultural, por isso, são inúmeras as recomendações sobre a forma e os componentes do culto ao Senhor no Antigo Testamento, justamente para não serem adotadas e, a partir de uma releitura, enxertadas nos serviços de adoração. Sendo o culto a reverência ao caráter santo do Senhor, seus elementos devem apontar para tais características, fora desse padrão, corre o risco de ofendê-lo.

No paganismo era, e é comum, cultos a deuses que não só se pareciam com os homens, mas conseguiam serem bem mais baixos, indecentes e indignos. Sendo comum fazerem-se orações a estes em busca de apoio e sucesso aos mais vis intentos. Citado por Benjamin Scott, Sêneca expressa sua indignação contra o comportamento indecente de seus compatriotas e seus deuses: “Quão grande é a loucura dos homens! Balbuciam as mais abomináveis orações, e, se alguém se aproxima, calam-se logo; o que um homem não deveria ouvir não se envergonham em dizer aos deuses… Se alguém considera o que eles (*deuses) fazem e ao que se sujeitam, em vez de decência, encontrará a indecência, em vez da honra, a indignidade; em vez da razão, a insensatez.”

O culto deve ser pautado por regras divinas, para que não acabe em uma adoração à personalidade humana divinizada, com todos os seus mais baixos vícios e mais repugnantes comportamentos. Sendo assim, as Escrituras declaram o caráter daquele a quem se deve adoração, e como Ele a recebe. Trata-se do caráter de quem cultua muito mais que seus ritos estranhos, tendo, porém, uma grande insistência na total disparidade entre o culto ao Senhor e os cultos idólatras.

Culto a Deus ou à personalidade humana?

Divinizar-se é ato natural dos decaídos. Saídos do Jardim do Éden, as primeiras reações são de revolta, rebelião e enfrentamento de Deus. A geração pré-dilúvio deseja e maquina “só o mal continuamente”. A geração pós-dilúvio, constrói uma torre em direção ao céu para não mais se submeter ao senhorio de Iaveh. Mas, logo descobrem que precisam servir e adorar, porque isso está em sua essência objetiva. Porém, ao invés de voltarem-se ao Criador, adotam deuses que lhes correspondam em suas ansiedades mais baixas e fúteis. Nascem os deuses das guerras, da fome, da vingança, da morte, da riqueza, do prazer… Todos eles se relacionam com base na troca de presentes, sem qualquer exigência moral.

É o que acontece quando nos esforçamos para tornar o culto ao Senhor mais palatável, mais alegre, mais feliz, mais útil. As necessidades determinam o culto, de forma que, no final, se alcance o desejo dos presentes. As trocas chamadas de ofertas, votos, propósitos, se tornam o meio de alcança-las. A clientela sai satisfeita, e, logo, voltará e trará mais clientes.

Em um culto antropocêntrico, podemos até ouvir dizer do senhorio de Cristo, da soberania de Deus, da salvação pela graça, da justiça divina, mas essas doutrinas serão só enfeites desbotados em uma árvore de natal cheia de promessas de poder, alegria, soluções e prosperidade. Citar a Palavra do Senhor, Seus atributos, Sua Graça, não significam que seu caráter está sendo demonstrado, antes, pode contribuir para a mais absoluta deturpação da pessoa bendita do Senhor.
Quando eu digo que o Senhor tem todo poder nos céus e na terra, mas, acrescento que “a oração move a mão de Deus”, não estou demonstrando sua soberania absoluta, estou lhe colocando no rol de deuses que precisam ser agradados e incentivados para que se mexam. Fiz de Iavé um ídolo, e eu o controlo segundo minhas penitencias.

Quando digo que preciso criar um clima agradável para as pessoas, a fim de que elas se sintam bem na igreja e saiam dispostas a voltar, não estou exaltando a Glória do Senhor, estou exaltando as disposições do coração humano. O culto que não aponta e se restringe a exaltação unicamente de Cristo e seu amor gracioso, é sempre um pretexto para a satisfação humana em seus anseios que se tornam em práticas de idolatria.

Com isso estou dizendo que não há espaço para a alegria no culto? Não. Mas, querer apoiar esse hedonismo nas escrituras, argumentando que o povo de Israel tinha muitas festas e que Jesus foi a uma, é, no mínimo, desonestidade hermenêutica, por desconsiderar que esses momentos são pouquíssimos se comparados com a quantidade de exortações para o arrependimento e a santidade. Além, é claro, de uma total ignorância quanto às vezes que o Senhor fala, por seus profetas, para que o povo mudasse de comportamento, pois Ele não os aguentava mais, incluindo seus cultos e festas (Is 2.10-15; Jr 6.19,20; Os 6.9; Am 4.4,5) .

Conclusão

O culto é um ato de adoração em que seus administradores demonstram sua gratidão, submissão e amor, e através destes, refletem o caráter único daquele que é adorado. Nas palavras de Beale: “O que eu e você refletimos? (…) Deus criou os seres humanos para refleti-lo, mas, se não se comprometerem com ele, não o refletirão, e sim outra coisa da criação. No íntimo de nosso ser somos criaturas reprodutoras de imagem. É impossível ser neutro nesse aspecto: Refletimos o Criador ou outro elemento da criação” .

O simples fato de pessoas se reunirem em um templo com um nome criativo ou imponente, alojado em um prédio deslumbrante e ostentoso, sob a orientação de alguém autoproclamado “homem/mulher de Deus”, vestido em trajes extravagantes, que imitam roupas orientais, ou sob a liderança de uma figurinha carimbada da TV, não significam que estejam prestando culto ao Deus que se revelou nas escrituras. Mesmo se manifestações acontecerem com certa frequência, e os testemunhos se multiplicarem, não são fatores que determinam a presença de Jesus.

O Culto é absoluto em Deus

O culto deve ser um absoluto esvaziamento das vaidades humanas, frente à glória única do Pai, pois isso evidencia Sua grandeza e majestade. Deve demonstrar um caráter transformado, nos moldes do Sermão do Monte (Mateus 5-7), pois assim é manifesta a Santidade daquele que é adorado. Deve gerar pavor nos pecadores, diante da santa e incorruptível justiça Divina. Deve ser ornado com a alegria dos santos, salvos pela graça, regenerados mediante o amor, justificados sem nunca terem sido justos.

O mundo, cego pelo Deus deste século, não consegue enxergar a Soberania divina em Sua criação, mas, isso não impede que seus filhos manifestem sua beleza, glória e graça em um culto agradável a Ele. Que haja menos cultos à personalidade e estrelato humano, e mais devoção, piedade, santidade e pureza numa demonstração verdadeira do caráter imaculado daquele que é, era e há de vir. Neste teatro, só há um holofote, e ele aponta para Jesus no centro da cena.

Soli Deo Gloria.

Texto de Davi Oliveira

Presbítero da Igreja Batista Lírio dos vales, Jequié-ba – bacharelado em teologia pela Faculdade Batista Brasileira e atualmente é professor do Instituto John Owem

Did you find apk for android? You can find new Free Android Games and apps.

DEIXE UM COMENTÁRIO

Comentários do Facebook