Líderes da TMI lançam manifesto em defesa indireta de Lula, Dilma e o PT

Want create site? Find Free WordPress Themes and plugins.

O cenário político brasileiro tem fervido, nos últimos dias, com o andamento da Operação Lava Jato, que investiga o maior escândalo de corrupção da história brasileira. As investigações mencionam, entre outros, o envolvimento da presidente da República, Dilma Rouseff, e o ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva. Com a divulgação de depoimentos e provas comprometedoras para ambos, bem como para outros investigados, muitos membros da sociedade têm se manifestado contra Lula, Dilma e o Partido dos Trabalhadores. No entanto, um grupo de líderes evangélicos – ligado à teologia da missão integral – lançou um manifesto, em que defende indiretamente Dilma, Lula e o PT, e condena o processo de investigação e de impeachment que tramita no Congresso.

O manifesto, assinado por líderes como Ariovaldo Ramos, Ed René Kivitz, Carlos Queiroz e Paulo Cappeleti, insinua em seu texto o apoio dos signatários aos investigados, sem fazer menção a nenhuma das provas divulgadas pela Polícia Federal e pelo Ministério Público Federal e que colocam os investigados em uma posição bastante comprometedora. Pelo contrário: o manifesto reproduz alguns dos discursos propagados pelo próprio PT e outras instituições que o apoiam, como o Movimento dos Sem Terra, a CUT e outros dos chamados “movimentos sociais”.

Logo no início, o texto faz alusão aos protestos que têm tomado conta do país, e que têm como principal pedido a investigação e devida punição de todos os envolvidos no escândalo da Petrobras, investigado pela Lava Jato. Após classificar a indignação contra a corrupção como sendo “justa e profética”, o manifesto diz: “rejeitamos igualmente toda indignação pecaminosa que suplante o ordenamento jurídico, que aja com parcialidade e dissemine o ódio e o desejo de vingança entre os brasileiros”. Entretanto, os movimentos que têm ido às ruas, encabeçados principalmente pelo Movimento Brasil Livre e pelo Vem pra Rua, não têm tentado suplantar o ordenamento jurídico, mas têm sido manifestações pacíficas, que apoiam o Ministério Público Federal, a Justiça Federal e a Polícia Federal. Além disso, tais movimentos não têm pregado a violência contra os investigados, nem têm incitado a destruição do patrimônio público: apenas têm exigido o cumprimento da lei e da justiça.

Quanto às investigações, estas também foram alvo de críticas no manifesto. O texto insinua que elas não estão sendo conduzidas dentro da legalidade, ao afirmar: “Não concordamos que os ritos necessários para o juízo legal sejam adulterados apenas para atender ao clamor público”. Todavia, o manifesto não aponta que ilegalidades possam ser essas. Vale salientar que, durante esse processo, os tribunais superiores, quase que em sua totalidade, têm endossado as decisões tomadas pela 13ª Vara de Justiça em Curitiba, comandada pelo juiz federal Sergio Moro, e que é responsável pelo processo da Lava Jato.

Em outro momento, o manifesto também condena indiretamente o processo de impeachment contra Dilma Rousseff, que corre na Câmara dos Deputados, seguindo as etapas prescritas na Carta Magna brasileira, a Constituição Federal. Segundo o manifesto, o processo “viola a vontade do povo”, decidida através do voto: “Se a escolha dos eleitores corre o risco de ser invalidada, tem de haver um processo segundo o ordenamento jurídico, logo, isso tem de ocorrer de forma isenta e sob o império da Lei”, e conclui: “O mandato outorgado pelo povo, por meio do voto, não pode ser levianamente questionado.”

Por fim, o manifesto afirma que os signatários “defendem a democracia como valor inexorável” e não aceitam “que nada possa interferir no Estado de Direito”. Apesar disso, eles não mencionam nem condenam as práticas dos investigados que claramente atentam contra o Estado de Direito e a ética na gestão pública – a exemplo da nomeação de Lula ao Ministério da Casa Civil, nomeação essa que interfere no andamento normal das investigações e que desconsidera as claras evidências de envolvimento do ex-presidente no esquema de corrupção, como depoimentos e escutas telefônicas. O manifesto também não condena o conteúdo dos depoimentos e das escutas, recentemente divulgados, e que demonstram de forma clara a falta de ética no tratamento da coisa pública, tanto por parte de Dilma como de Lula. O documento ainda insinua que o processo de impeachment contra a presidente corre de forma ilegal quando, na verdade, ele é conduzido dentro do que é determinado pela Constituição.

A esse respeito, fica claro que o manifesto faz afirmações que não são verdadeiras. Ao insinuar que o processo de impeachment está sendo conduzido de forma “leviana”, os signatários desconsideram que, em nosso país, a democracia representativa está sendo evidenciada dentro desse mesmo processo, já que o impeachment está sendo conduzido pelo Congresso – composto de senadores e deputados que, à semelhança de Dilma, foram democraticamente eleitos. Mais do que isso: o Congresso Nacional abriga membros tanto da situação como da oposição, em uma clara representação do que é a sociedade brasileira. Com isso, o Congresso Nacional, assim como foi endossado pelo próprio Supremo Tribunal Federal, tem total legitimidade e autoridade para julgar o processo de impeachment, conforme já está sendo feito.

A simpatia pelo PT e seus membros por parte de alguns dos líderes que assinaram o manifesto não é de hoje. Em 2013, alguns dos signatários desse manifesto foram recebidos pelo então ministro da Secretaria Geral da Presidência, Gilberto Carvalho. À época, o grupo, encabeçado por Ariovaldo Ramos (o mesmo que saiu em apoio de Dilma e do PT em seu Twitter), afirmou que “Vamos apoiar as ações do Governo que favorecem o pequeno, o pobre, a criança”. Em contrapartida, o ministro afirmou, em relação ao grupo: “Somos companheiros de caminhada. Ouvir vocês foi um bálsamo, um oásis no deserto”.

O pastor Renato Vargens, todavia, criticou o manifesto. Para ele, o documento demonstra que esses líderes evangélicos têm conceitos fundamentados em ideologias políticas. “Triste ver que os conceitos dos que assinaram o documento estão fundamentados numa ideologia política que fecha os olhos para a corrupção promovida por um partido que sucateou a nação”, afirmou Vargens, que completou: “concluo que o documento além de parcial, ideológico, tendencioso, e que ao contrario do que seus proponentes afirmam, não é profético e sim desprovido de compromisso com a verdade e justiça.”

Leia o texto do manifesto na íntegra:

 

Manifesto de Evangélicos pelo Estado de Direito – Iniciativa do Missão na Íntegra

Nestas últimas semanas, a nação brasileira tem vivido momentos de aflição, angústia e ódio. A ausência de serenidade e cautela, nesta hora crítica, tem despertado muita preocupação e tememos que o acirramento provocado venha custar vidas humanas.
Conquanto tenhamos entre os membros de nosso movimento, como em todo o universo evangélico, as mais diversas opiniões políticas, ideológicas e opções partidárias, há em comum a pregação da tolerância, da paz e da justiça, conforme a orientação das Escrituras Sagradas. Desejamos, neste manifesto, nos posicionar a respeito desses acontecimentos.

Todos os signatários deste manifesto declaram que:

• como cristãos, rejeitamos e denunciamos com veemência a corrupção, a iniquidade, a impunidade e o ataque ao Estado Democrático de Direito. Esses desvios fazem com que o pão não esteja na mesa do pobre, e deixem os enfermos e os órfãos desamparados.

• entendemos que a corrupção e a impunidade têm sido problemas endêmicos na sociedade brasileira. E que a indignação de todos nós contra isso é justa e profética. Contudo, rejeitamos igualmente toda indignação pecaminosa que suplante o ordenamento jurídico, que aja com parcialidade e dissemine o ódio e o desejo de vingança entre os brasileiros.

• somos favoráveis a que todos, em quaisquer posições que ocupem ou de quaisquer camadas da sociedade, denunciados na forma da lei por possíveis crimes, sejam investigados e julgados. Porém, só se faz justiça civil pela aplicação rigorosa e exclusiva da lei. Não concordamos que os ritos necessários para o juízo legal sejam adulterados apenas para atender ao clamor público.

• rejeitamos a postura midiática tendenciosa com divulgações editadas dos processos investigativos. Essa prática irrefletida apenas tem promovido dias de aflição e angústia para os brasileiros, além de propagar o ódio e a intolerância com quem pensa de forma diferente sobre a condução dos processos. Por isso, nós pedimos à nação, e em especial aos nossos irmãos em Cristo, muita cautela e serenidade, e que o desejo de justiça não nos torne injustos.

• sabemos que os gritos de “crucifica-o” são motivados, muitas vezes, por gente mal intencionada e isso pode nos trair e nos levar a julgamentos precipitados. Entendemos que condenar alguém, antes que todo o processo investigativo seja concluso, antes que se dê amplo direito de defesa, e antes que um tribunal dê sua sentença final, constitui um perigoso precedente para que quaisquer poderes, seja o Executivo, o Legislativo ou o Judiciário, excedam os seus limites constitucionais.

• exigimos respeito ao voto. Toda eleição é uma convocação e um embate entre eleitores, e o voto é o suporte da legitimidade. Se a escolha dos eleitores corre o risco de ser invalidada, tem de haver um processo segundo o ordenamento jurídico, logo, isso tem de ocorrer de forma isenta e sob o império da Lei. O mandato outorgado pelo povo, por meio do voto, não pode ser levianamente questionado.

• rejeitamos todo ódio. O ódio, constatado muitas vezes nos discursos de figuras públicas, incita a violência e isso, segundo a nossa fé, é diabólico e não pode ser admitido entre os que constituem a Igreja do Senhor Jesus em solo brasileiro. Cabe a todo cristão a tarefa de ter paz com todos, seja em serviço ao próximo, seja em tolerância com quem pensa diferente, sendo capaz de amar e interceder por seu oponente. Intercessão que, rogamos, seja feita por nossa nação.

• defendemos que as investigações devam continuar, que as provas sejam coletadas e os responsáveis sejam arguidos pelos tribunais, conforme o estabelecido nas leis brasileiras. Que não haja privilégios para qualquer pessoa investigada, independente de posição ou partido político.

• defendemos a democracia como valor inexorável da Nação e não aceitaremos que nada possa interferir no Estado de Direito. Queremos que a institucionalização seja observada e que prevaleça a serenidade necessária para que o estado democrático seja preservado.

• reiteramos que “a voz” das ruas deve ser ouvida, mas o limite é a Constituição Brasileira. Cremos que todos devem ser investigados, mas dentro das garantias constitucionais. Que o voto e a escolha da maioria devem ser honrados, como reza a lei. Cabem às instituições, designadas democraticamente para tal, a garantia do Estado de Direito, a fim de que quaisquer cidadãos tenham seus direitos respeitados.

Para tanto permaneceremos em vigília e em orações.
Que o Senhor nos faça instrumentos da sua paz e da sua justiça.

 

Por Mariana Gouveia

Fotos: ecristo.wordpress.com / bbc.com / 3bp.blogspot.com / youtube.com

 

Did you find apk for android? You can find new Free Android Games and apps.

Comentários do Facebook